

No último debate entre os candidatos ontem, nossa candidatura tratou de dois temas que tiveram repercussão ao longo das intervenções de plenário: a fome no mundo e o tema da sustentabilidade ambiental.
Ambos temas, na nossa opinião, guardam relação com o modelo econômico vigente em escala global que está em crise desde o ano passado: o capitalismo. O aquecimento global é fruto das emissões de carbono geradas pela economia deste modelo e mais de 100 milhões de pessoas passaram à subnutrição diária por conta crise do capitalismo no último ano. Como resultado disso, diariamente mais de 1 bilhão de pessoas passam fome e, entre as principais vítimas as crianças.
Acompanhe abaixo duas notícias vinculadas aos temas:
''A RESPONSABILIDADE SOCIAL PESA ESSENCIALMENTE SOBRE OS PAÍSES INDUSTRIALIZADOS'', DIZ SACHS
Ignacy Sachs está em alta no debate público. O intelectual de 81 anos, consultor de vários governos - dentre eles o brasileiro - é professor da Escola de Altos Estudos de Ciências Sociais em Paris, onde criou e dirige o Centro de Pesquisas do Brasil Contemporâneo.
Com a proximidade da 15ª Conferência da ONU para o clima, a COP-15, a se realizar em dezembro, na cidade dinamarquesa de Copenhague, sua voz passa a ser cada vez mais procurada na tentativa de entender o atual momento vivido e, principalmente, vislumbrar alternativas de um futuro menos apocalíptico.
Durante a semana passada, ele esteve no II Seminário Conexões Sustentáveis: São Paulo - Amazônia, onde falou brevemente sobre o contexto em que o debate sobre a mudança de paradigmas em busca de uma economia de baixo carbono está inserido.
A reportagem e a entrevista é de Amazonia.org.br, 16-11-2009.
"Estamos entrando na terceira grande transição da humanidade. Depois do domínio das técnicas agrícolas e da era das energias fósseis, entramos agora num momento de encontrar uma saída ordenada para todos esses problemas que estão a nossa frente. Mas isso não acontecerá da noite para o dia, e sim, na perspectiva do que nos acompanhará até o fim desse século", disse ele.
O professor enxerga na crise a oportunidade para a humanidade "mudar de rumo". Ele destacou a necessidade do aumento das redes de serviços sociais, para que o Estado atue sobre o bem-estar da população sem influência do mercado. Segundo Sachs, para se atingir esse ponto, devemos adotar o voluntarismo responsável, que ele explica não se tratar de transportar utopias para o futuro, mas sim, contribuir com um projeto de longo prazo que tenha chances de ser realizado, enfrentando simultaneamente os desafios postos nas áreas social e ambiental.
"Temos que nos proteger de um paradigma de relações assimétricas. Precisamos tornar visíveis os padrões de relacionamento e nos proteger contra a exploração abusiva", conclui.
De saída, Sachs concedeu rápida entrevista ao Amazônia.org, que foi interrompida abruptamente pela urgência do professor em seguir para outro compromisso.
Eis a entrevista.
Copenhague será um fracasso, assim como Kyoto?
Pelos índices apresentados até agora, é difícil ser otimista. Mas é sempre possível imaginar uma inversão da situação através de uma ação de última hora de um grupo de grandes líderes. Sei que o presidente Lula está bastante empenhado na idéia. Oxalá seja bem sucedido. Os índices até agora são negativos. Estão todos enrolando, empurrando para frente. E há um problema muito claro posto aí, que vem desde Kyoto. Ou se discute o que precisa ser feito e depois como deve ser compartilhado o esforço para se atingir esse objetivo entre os diferentes atores, ou se discute até onde esses atores pretendem ir, e repetimos o erro de Kyoto, que mesmo se fosse implementado em 100%, seria apenas uma parcela do que deveria ser decidido naquele momento.
O senhor falou do presidente Lula. Como enxergou o anúncio de que o Brasil não levará metas obrigatórias...
Espere. Ontem ou anteontem li uma entrevista da ministra Dilma Roussef dizendo que não serão metas impostas, mas sim objetivos voluntariamente assumidos pelo Brasil. Eu acho isso correto. A responsabilidade social pesa essencialmente sobre os países industrializados.
Mas os países em desenvolvimento não podem repetir o modelo adotado pelos industrializados...
Os países industrializados não estão dispostos a assumir, então busca-se fórmulas complicadas para dizer que não se pode eliminar do esforço países que são grandes poluidores como China, Índia e Brasil. Esperar que esses países assumam voluntariamente compromissos é uma idéia forte. Não ter medo de assumir, e insistir sobre o fato de que é uma postura voluntária, não uma obrigação. De qualquer maneira, a diplomacia tem capacidades infinitas de encontrar fórmulas que depois podem ser interpretadas de maneira diferente. Ou haverá um momento em que os cinco, seis líderes mais importantes sentam à mesa para decidir, ou teremos um novo Kyoto. Por enquanto, esse acordo não apareceu.
Esses líderes, ao menos em seus discursos, vêm se posicionando de maneira favorável a uma economia de baixo carbono e uma mudança de paradigma na produção industrial. Mas não se percebe de fato mudanças significativas nesse modelo. Como seria uma maneira mais eficaz, ou até radical, para mudar de vez esse paradigma?
Esqueci meu colete do qual eu lhe tiraria uma resposta para essa pergunta. Não sei como se faz. Em última instância, uma pressão dos movimentos sociais poderia ter alguma importância, mas isso não está muito claro. Poderia haver uma convergência de movimentos sociais e políticos sobre esse assunto.
‘METADE DOS RECURSOS USADOS PARA SALVAR BANCOS ERRADICARIA FOME NO MUNDO’, DIZ LULA
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez nesta segunda-feira, em Roma, um chamado a que os países destinem recursos ao combate à fome, em uma cúpula marcada pela ausência de líderes das nações mais ricas – em tese as principais financiadores das iniciativas.
A reportagem é de Pablo Uchoa e publicado pela BBC Brasil, 16-11-2009.
Em um discurso de 18 minutos no início da Cúpula Mundial sobre Segurança Alimentar da ONU, Lula disse que "os líderes mundiais não evitaram gastar centenas e centenas de bilhões de dólares para salvar bancos falidos". "Com menos da metade desses recursos seria possível erradicar a fome no mundo", afirmou o presidente, acrescentando que o combate à fome “continua praticamente à margem da ação coletiva dos governos".
"É como se a fome fosse invisível", criticou. O encontro é promovido pela FAO, a agência da ONU para alimentação e agricultura.
Críticas
Segundo a organização, são necessários investimentos da ordem de US$ 200 bilhões por ano em agricultura primária nos países em desenvolvimento para atender à demanda global por alimentos até 2050, um aumento de 50% em relação aos níveis atuais.
Só a ajuda dos países ricos, diz a FAO, deveria ser de US$ 44 bilhões por ano em agricultura alimentar, – contra US$ 7,9 bilhões gastos atualmente a cada ano. Entretanto, as mensagens pedindo mais recursos para o combate à fome caíram em um vazio nesta segunda-feira em Roma, já que esta reunião ocorre sem a presença de lideranças importantes do mundo desenvolvido.
Em compensação, não faltaram críticas aos líderes ausentes. "Eu lamento a ausência dos países ricos neste encontro. É uma mensagem clara de que os ricos decidiram não tomar medidas para combater a fome no mundo", disse o líder líbio, Muamar Khadafi, na sua vez de falar. "Esta cúpula é sobre a mobilização de recursos e sem os países ricos, ninguém está dando nada para ninguém. A mensagem é que cada um tem de cuidar do seu próprio problema."
Mea culpa
Já a ONG Oxfam, de promoção do desenvolvimento, disse que a ausência dos países ricos é uma "falta de compromisso". "A falta de preocupação deles preocupa muito, justo quando mais de um bilhão de pessoas estão subnutridas e milhões de outras estão expostas à mudança climática e à volatilidade dos preços globais dos alimentos. Os países em desenvolvimento não deveriam ser deixados a sós nesta cúpula."
Em julho, durante seu encontro anual realizado em L'Acquila, na Itália, o G8, o grupo das sete economias mais industrializadas do planeta mais a Rússia, prometeu destinar aos países em desenvolvimento US$ 20 bilhões em um período de três anos para impulsionar a agricultura nesses países. Até agora o dinheiro não veio. O anfitrião do encontro, o premiê italiano Silvio Berlusconi, fez um mea culpa e admitiu que, após a promessa, é preciso "começar a trabalhar".
"Precisamos que cada país assuma sua obrigação de forma precisa, que garanta que o dinheiro possa ajudar os agricultores, em especial os pequenos, para elevar a produção de alimentos em todo o mundo", afirmou.
Lula
Enquanto isso não acontece, ONGs e a própria ONU alertam que a fome mata 24 mil pessoas a cada dia – 70% delas, crianças. A cada cinco segundos, uma criança morre por conta da falta de alimentos, dizem.
Ecoando essas estatísticas, o presidente brasileiro qualificou a fome de "a mais temível arma de destruição em massa que existe no nosso planeta".
"Na verdade ela não mata soldados, não mata Exércitos, ela mata sobretudo crianças inocentes que morrem antes de completar um ano de idade". Lula ainda lamentou que os esforços para socorrer os pobres da miséria, da exclusão e da desigualdade ainda sejam vistos por muitos como "assistencialismo” ou “populismo".
No Brasil, ele disse, tais esforços "foram iniciativas políticas que permitiram ao Brasil retirar 20,4 milhões da pobreza e reduzir em 62% a desnutrição infantil", disse o presidente. "Os milhões que antes não encontravam lugar em nossa sociedade passaram a ser, pouco a pouco, nosso maior ativo. Hoje, eles formam parte da nova fronteira econômica, social e política que está moldando o Brasil", acrescentou Lula.